INFRA-ESTRUTURAS NO CUANZA SUL À ESPERA DESDE 2013

A mais recente vaga de anúncios do Executivo para a província do Cuanza Sul, liderada pelo ministro João Baptista Borges e pelo governador Eugénio César Laborinho, volta a colocar no papel uma ambiciosa carteira de projectos nos sectores da água e energia. No terreno, porém, o cenário permanece teimosamente igual: obras que se arrastam há anos, projectos paralisados e promessas recicladas que já não convencem uma população habituada a esperar — quase sempre em vão.

Por Geraldo José Letras

A nova aposta do Executivo recai sobre a construção de uma captação de água no rio Keve para abastecer o município do Porto Amboim e reduzir a dependência do rio Cambongo. A medida surge como resposta aos ciclos de estiagem que afectam a região.

Mas a pergunta impõe-se: o que garante que este novo projecto não terá o mesmo destino de outros?

O histórico recente é desolador. O sistema de abastecimento de água de Porto Amboim está paralisado desde 2015, sem explicações convincentes. Ao mesmo tempo, anunciam-se novas expansões para municípios como Quibala, Gabela, Calulo e Mussende — num padrão que privilegia o anúncio em detrimento da execução.

No sector agro-pecuário, o projecto de irrigação entre o rio Longa e Porto Amboim, incluindo o aproveitamento do Vale da Wamba e a futura barragem, surge como solução estrutural para a seca. No entanto, estas iniciativas ainda não passam de intenções, enquanto criadores de gado e agricultores continuam a sofrer perdas reais.

No domínio energético, o Executivo garante que o ramal e a subestação do Alto Chingo estão “em fase de conclusão” e deverão beneficiar municípios como Seles, Ebo e Conde ainda este ano.

Mas a realidade provincial mostra que “fase de conclusão” nem sempre significa conclusão efectiva.

O caso do Mussende é paradigmático: a electrificação depende de um financiamento de 80 milhões de dólares, ainda por garantir. Ou seja, o projecto existe no papel, mas continua distante da realidade das populações.

Enquanto isso, zonas inteiras da província continuam sem acesso regular à energia, décadas após o fim da guerra, evidenciando um atraso estrutural que os sucessivos anúncios não conseguem esconder.

Se há símbolo máximo da ineficiência na execução de infraestruturas públicas no Cuanza Sul, é o Hospital Municipal de Porto Amboim. Integrado no Programa de Investimentos Públicos (PIP) desde 2013 e financiado em 2018 por despacho do Presidente da República, João Lourenço, com um orçamento de cerca de 8,9 mil milhões de kwanzas, o projecto tornou-se um caso crónico de atraso.

Inicialmente previsto para conclusão em 2025, o hospital apresenta hoje uma execução física estimada em cerca de 75%, mas com apenas 50% de execução financeira — um desfasamento que levanta sérias dúvidas sobre a gestão dos fundos públicos.

Na prática, a população continua dependente do degradado Hospital Dr. António Agostinho Neto, cuja capacidade está muito aquém das necessidades.

Mais grave ainda: enquanto se anunciam novos projectos de água e energia, infra-estruturas essenciais como hospitais continuam inacabadas há mais de uma década.

A crise de infra-estruturas não se limita aos grandes projectos. No quotidiano, a precariedade é visível em problemas básicos, como o estado deplorável das vias de acesso a escolas e unidades de saúde.

Em Porto Amboim, a estrada que dá acesso ao Liceu do Tango e à Maternidade Infantil permanece degradada, dificultando o acesso de estudantes, professores, médicos e pacientes — um retrato claro de como o colapso das infraestruturas afecta directamente direitos fundamentais.

Durante a sua visita, Eugénio César Laborinho falou em “dinâmica de trabalho”, “recurso à ciência” e “melhoria das condições de vida”. Mas o discurso institucional contrasta com um padrão repetido ao longo dos anos: projectos anunciados com pompa; execuções lentas ou inexistentes; obras abandonadas ou eternamente inacabadas.

A chamada “luz verde” para o desenvolvimento tornou-se, para muitos habitantes, um símbolo de frustração — um sinal que acende nos discursos oficiais, mas nunca chega a iluminar a vida real.

O caso do Cuanza Sul não é isolado, mas é particularmente ilustrativo de um modelo de governação baseado em anúncios sucessivos, com fraca capacidade de execução e pouca responsabilização.

Enquanto novas promessas surgem — captação de água no Keve, barragem da Wamba, electrificação do Mussende —, as antigas continuam por cumprir.

E no meio desse ciclo, permanece a pergunta essencial: quantas vezes mais será preciso anunciar o mesmo desenvolvimento até que ele, finalmente, aconteça?

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